Temporal das Saudades Felizes
Fomos nos distanciando pouco a pouco, quando fui olhar, estávamos em países diferentes. Me deu uma súbita saudade daquelas vezes em que passeávamos juntos na chuva, você sem o medo de mostrar a sua roupa toda molhada e colada ao corpo, e eu sem medo da gente adoecer por causa daquela nossa aventura maluca. Nós dois que adorávamos contar um para o outro alguns devaneios repentinos sobre as coisas que estavam em torno de nós, bem como aquela árvore, que, como lágrimas, pingava as gotas da chuva e, ao mesmo tempo, caiam folhas que saiam para ceder o seu espaço para uma nova, ou até quem sabe, a mesma folha renascesse ali naquela árvore, sabe lá! Ao me lembrar destes inusitados passeios, eu me coloco na terceira pessoa que se regozijava de um nem tão distante local, eu me faço o passarinho que de dentro dum ninho farto de vida, naquele momento espreitava aqueles dois andarilhos loucos e risonhos. Ao me lembrar destas aventuras, talvez eu me faço a própria árvore, na qual devaneamos sobre, e que, como se eu estivesse voltado no passado, sendo este, trazido para o instante transformado no agora pela lembrança. Acho até que deste mesmo modo, eu possa ter voltado no tempo e tivesse sido transformado naquela nuvem escura que se amontoava a outras indivisíveis nuvens da mesma cor, nas quais se espremiam e não podiam segurar o que cada uma carregava dentro de si. Muita água, muita água. Enquanto caminhávamos juntos, a gente chutava as poças d'água e conversávamos sorrindo o que nem eu e nem você podia entender, pois o barulho da chuva era grande e o excesso de água em nossos rostos atrapalhava a nossa dicção. Mas não havia problemas, porque eu carregava-te no colo em direção ao aparente nada, rumo ao que transformamos juntos em porvir da excelência, cobertos de certezas deste amor que temos um pelo outro, sem que houvesse a possibilidade de que o outro pudesse julgar o contrário daquilo que tínhamos certeza. Naquele instante, era irradiante, era tudo feliz, e, enquanto o sol aparecia aos poucos, ia se formando um arco-íris. Só mesmo para que o cenário de tudo que existia se emparelhasse com a nossa linda festa interna, a nossa alegria eterna de apenas um saudoso momento.
Tiago Araújo - 27/12/2012
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