Retrato

  Gostaria de ser um retrato. A honestidade de uma foto é invejável, absolutamente estatizada eternamente, e a mercê do tempo que a digere. Não muito diferente do modo de vida daqui. Nasci filho, cresci namorado, virei marido e hoje sou pai. Amanhã avô, quem sabe? E ao mesmo tempo, as outras representações de funcionalidades, ainda seguem capturando. No meu escritório havia uma calculadora, minha ferramenta de trabalho na época em que eu era contador. Nas horas vagas eu conversava com ela, eu sempre perguntava assim "Será que você está contando o seu tempo de vida? Será que você conseguiria acertar o horário em que vou precisar de você?" obviamente, eram pensamentos vagos, delirantes. Nesta época, somente o que trazia lucro para mim e para a empresa, era considerado racional, nobre e são. Mas, voltando ao retrato (meu desejo atual de ser)...realmente, percebo que ele não muda, será sempre este sorriso, este olhar, este cenário, esta roupa...OK! Tem algo de muito admirável, algo que apesar de ser imutável, afirma a sua existência como objeto, um objeto para as eternas análises, feitas por nós, os lúcidos... "Onde ele estava neste dia?" "Nossa, que camisa horrível!" "Esta foi no dia do aniversário do...". A foto está ali, promovendo territórios delirantes, instigando a fixação rostificada de todos...a imagem representativa de mil rostos. O rosto do cenário, o rosto da memória, da moda, do cabelo, e até do porta retratos, onde ela mora há tempos. Gostaria de ser uma foto, aquela que captura os espaços conhecidos e desconhecidos dos incertos lugares de outrem. Brilham e iluminam como as telas, admiráveis, mas sem nome e sem vida. Há nela, só o que é, e isto basta... Eu não quero ser um retrato. 


Tiago Araújo

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